27 de noviembre de 2014

SER DOS



A qochra e a boina: jogar a “ser homem”



Na sua etapa de etnólogo na Cabília Pierre Bourdieu tomou apontamentos sobre a qochra, jogo praticado polos meninos da Ain Aghbel nos primeiros dias da primavera. Trata-se dum caso exemplar de “exercício estrutural”, mediante o qual, da prática à prática e sem passar polo discurso e a consciência, os meninos interiorizam um mundo simbólico tornado corpo, numa lúdica lição de dominação masculina. Ao começar o jogo o árbitro pregunta uma e outra vez de quem é a  menina –representada pola qochra, uma pelota de cortiço- enquanto nenhum dos jogadores aceita a “paternidade” da mesma, com todas as obrigadas que isso suporia: uma filha debilita o homem. Não fica outro remédio, pois, de rifá-la: o desafortunado ao que lhe toque a qochra tem, à vez, que protegê-la das desonras dos homens e endosar-lha, em condições honoráveis, a outro jogador. “Aquele a quem toca com a sua moca dizendo-lhe “é a tua filha” não tem outra alternativa que declarar-se vencido, à maneira de quem é momentáneamente o obrigado da família, amiúde de rango social inferior, na que tomou esposa”. O “pai” procura casar bem a filha para librar-se dela e reintegrar-se no jogo, mas os pretendentes intentam o heroico rapto, o golpe de virilidade sem contrapartida: o desprestígio do pai através do honor sexual da filha. “Aquele que perde o jogo é excluido do mundo dos homens; anoa e pelota na sua camisa, que é igual que tratá-lo como uma mulher à que se lhe fai uma criança” (1).

Embora duma maneira mais informal, o jogo que faziam os meninos galegos com as suas puchas também é um exemplo de socialização lúdica na lógica da virilidade masculina: quando praticamente todas as crianças levavam boina desde mui pequeninhos, brincavam entre eles a ver quem era capaz de cortar-lhe aos outros o viril rabinho da pucha ao mesmo tempo que protegía o próprio. “Capárom-me a pucha…”, lamentava-se, profundamente humilhado e entre as burlas dos demais, o descuidado ao que cortavam o rabinho da boina (2). A boina, conhecida em algumas paróquias como “o macho” (3), usava-se na medicina popular como símbolo do poder masculino que expulsa o mal feminino do corpo da pessoa doente, numa sorte de exorcismo sexual. Assim por exemplo, botavam fora o mal de olho duma vaca fregando-lhe a pele com uma pucha de homem (4); como explicava uma labrega a Lisón Tolosana: “O outro dia, há mui pouco (década de 1960), não arrancavam os bois. Então o homem quitou-se a gorra, passa-se, dispensando a palabra, polos colhões e depois cruza-se os bois. Passa-se a boina três vezes e fam-se três cruzes… e arrancárom os bois” (5). Mas é no parto, o momento por excelência do domínio do mal feminino, quando mais se empregava “o macho”: para expulsar a placenta com o seu poder masculino (6), ou como defesa simbólica do vulnerável recém nado, que apenas saia da casa com a boina do pai ou do avô posta (7). Ainda, na mesma lógica sexual, a boina servia para esconjurar os encantamentos das sedutoras mouras (8).


NOTAS:
1- Pierre Bourdieu, El sentido práctico, Madrid, Taurus, 1991, p. 127 n. 18
2- Xavier Castro, Historia da vida cotiá en Galicia, Séculos XIX e XX, Vigo, Nigratrea, 2007, p. 95
3- Por exemplo na Armenteira (Meis). Antonio Pereira Poza, Ritos de embarazo e parto en Galicia, Sada, Ediciós do Castro, 2001, p. 80
4- Xosé Ramón Mariño Ferro, La medicina popular interpretada I, Vigo, Xerais, 1985, pp. 168-70. Em Marim também se fazia nas pessoas o remédio de passar-lhes três vezes a boina, conforme apontou Víctor Lis Quibén, La medicina popular en Galicia, Madrid, Akal, 1980, p. 106.
5- Carmelo Lisón Tolosana, Brujas, estructura social y simbolismo en Galicia, Madrid, Akal, 1980, p. 203. Igualmente, em Combarro, quando uma vaca cai ao chão por malefício “tira-se a gorra, passa-se polas partes íntimas e depois polo lombo da vaca” ().
6- Fazia-se em sítios como Bueu, Salzeda de Caselas e Ogrobe. Pereira Poza, cit., p. 88.
7- Na seçom etnográfica da revista Nós (nº 137, III) recolhe-se este costume em Negreira, mas era comum em todo o país.
8- María del Mar Llinares, Mouros, ánimas, demonios. El imaginario popular gallego, Madrid, Akal, 1990, p. 88.



 un texto de Carlos C. Varela.






Es bastante probable que la primera entrada de este mes induzca a múltiples interpretaciones que sin duda coexisten sin todavía conocerse. Tal vez, mi intención no es cambiar esa ausencia. Para ello voy a traer dos textos. El primero, el previo, de Carlos C. Varela, una indagación en la chistera. EL segundo, es un poema con el que inicia el prólogo Luce Irigaray en Ser Dos, libro ignorado por la biblioteca ignoria, bueno, en la biblioteca del hombre quisiera decir.




" deux jeurs, une nuit "   -    2014





Prólogo

APENAS RENACIDA DE ELLA

Tierra,
tú que me cobijas pero con quien comparto,
tú la fecunda de tantos y tantos hijos que no se parecen,
tú que creces sin cesar, a veces en secreto, a veces a la luz,
tú que llevas la semilla, la flor y el fruto,
tú que nunca dejas de restaurar la vida,
consagrándote en cada época del año al devenir de lo vivo,
dejando subir o trascender la savia,
evitando que se derrame fuera de ti, si no es para el fruto maduro,
Tierra,
protégeme, fiel.
Y, cuando viene la primavera, ríes.
Murmuras a través de las hojas y las flores.
Te estremeces a través de los pájaros.
No es el crecimiento rápido del comienzo del verano, sino la dicha.
No hagas estallar aún el esplendor de mitad de año, aún estamos al comienzo
Es el tiempo de lo inconcluso, de la sorpresa.
La vida avanza en puntas de pie.
El silencio persiste a pesar del canto de los pájaros.
¿Acaso lo que crece dispone así de su futuro?
Existen, en primavera, distancias infranqueables.
Ningún espacio está todavía plenamente ocupado,
pero los espacios no están vacíos: están habitados por un crecimiento invisible.
Allí donde parece no haber nada, existe una presencia, o mil.
Es lo uno, y lo múltiple; lo uno es múltiple.
Pero la separación todavía no es tajante.
Las raíces terrestres y las raíces celestes se unen sin usurparse
mutuamente los límites.
Cada uno, cada una permanece en su lugar de nacimiento, pero el todo se 
[abre.


SER DOS
Luce Irigaray

ED PAidós

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